Há mais de um
século, diante da áspera beleza da caatinga, Euclides da Cunha escreveu:
"O
heroísmo tem nos sertões, para todo o sempre perdidas tragédias espantosas."
Este livreto
mostra nossas ações contra uma das muitas tragédias que afetam o trabalhador brasileiro
e, em especial, o homem do campo. No litoral ou sertão, o herói é aquele que lida com
um veneno terrível, criado para ser arma de guerra, mas difundido como "defensivo
agrícola" ou "remédio" para as pragas da agricultura. O trabalhador
utiliza o agrotóxico sem saber a dimensão do perigo que representa para sua saúde e dos
seus familiares, o meio ambiente e o consumidor.
Usar veneno na
agricultura, ensina o Estado, é moderno.
Esta é a
tragédia do trabalhador rural: para sobreviver na atividade tem que utilizar agrotóxico.
Não foi ensinado um outro jeito de produzir. Mas existe? Existe sim. É possível
produzir sem utilizar venenos. Na verdade, a tecnologia de venenos está ultrapassada - os
países do primeiro mundo estão fechando as barreiras à entrada de alimentos com
resíduos de agrotóxicos. E as indústrias fabricantes de agroquímicos já embarcaram na
biotecnologia, a nova fase da Revolução verde. Mantém, no entanto, a dependência do
produtor. E com a Lei de Patentes, aprovada no primeiro semestre de 1996 no Congresso, os
grande grupos empresariais terão o poder total: serão donos das sementes, dos mercados,
dos insumos; dirão o que devemos plantar e quanto devemos produzir. Parece que saímos de
uma tragédia para entrar noutra.
O consumo de
agrotóxicos no Brasil rendeu em 1995 US$ 1,5 bilhão aos seus fabricantes. É muito
dinheiro: com ele dá para montar o Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam. O
consumo de agrotóxicos foi de 200 mil toneladas. E quantos produtores foram contaminados?
Ninguém sabe.
Mas vamos saber!
É possível
reverter este quadro e as ações aqui apresentadas revelam que estamos atuando neste
sentido. Estamos indo contra a maré, contra o sistema imposto, na defesa radical da
saúde do trabalhador exposto a agrotóxicos (e não somente o trabalhador rural).
É importante
frisar que nossas ações resultam de um trabalho de equipe. Gostaria de destacar o apoio
dos cientistas do Rio Grande do Sul, Sebastião Pinheiro, Letícia Rodrigues da Silva,
Lenine Alves de Carvalho e João Werner Falk; também o apoio da ONG Caatinga (nas pessoas
de Maurício Aroucha e Valda Torres), CPT de Juazeiro e Petrolina, Sindicatos de
Trabalhadores Rurais de Petrolina, Vitória de Santo Antão, Fetape, Pólo Sindical do
Sub-médio São Francisco, a doutora Lia Giraldi da Fundação Osvaldo Cruz, e a equipe do
nosso gabinete (assessoria de Dioclécio Luz).
Gostaria ainda de
agradecer o apoio da doutora Iraci Costa. E, finalmente, destacar o seu trabalho à frente
da Diretoria de epidemiologia e vigilância sanitária da Divisão de Saúde do
trabalhador da Secretária de Saúde do estado de Pernambuco. Certamente o programa que a
doutora Iraci está implementando de vigilância de populações expostas a agrotóxicos,
se soma as ações que estamos encaminhando nesta Casa.
Tudo isto para que
as tragédias não continuem ocorrendo. A vida não precisa ser mais áspera do que é. |